JORNAL POESIA 

Maria Amazona: a mulher que ama o que o mundo chama de falta

Em ‘Nada de Novo’, Sadraque Régis cria uma personagem que celebra o sertão com a mesma ferocidade com que reinventa o cangaço

Há uma coisa que Maria Amazona não faz: se lamentar do sertão. Ela o ama. Com defeitos, com a seca, com o sol “fulgente de todo dia”, com a pouca chuva. E quando chove muito, como uma vez choveu tanto que o avô exclamou “Meu bom Jesus!”, ela guarda a memória como um tesouro: “Foi um bom ano aquele.” Maria Amazona, protagonista de Nada de Novo (M.inimalismos, 2026), romance de estreia de Sadraque Régis, não é apenas a mulher mais insurgente da literatura brasileira recente. É também, talvez, sua mais apaixonada habitante de chão.

O sertão de Maria não é o sertão da literatura de denúncia social: árido, cruel, expulsando seus filhos para o sul. Tampouco é o sertão místico e abstrato do Grande Sertão: Veredas, onde o diabo aparece nas dobras da linguagem. O sertão de Maria é concreto, cotidiano, amado na proporção exata em que é imperfeito. “Me recuso a acreditar que o sertão possa ser tão ruim assim que as infelicidades das cidades do brasil não compensem Nossa alegria”, ela diz, e nessa frase há um manifesto inteiro de resistência ao discurso da falta. A caatinga não é pobreza de vegetação: é exuberância de outra espécie. O cacto não sofre o sertão. O cacto é o sertão, e o sertão é o seu lar.

Essa recusa é filosófica, não ingênua. É a mesma personagem que diz, com uma leveza que esconde a profundidade do argumento: “e depois, como Eu nunca morri, ninguém tem prova nenhuma de Minha mortalidade, Eu sobremaneira, Me recuso dessa certeza.” Maria tem uma tendência confessa à incredulidade (“se o diabo aparecesse pra Mim ainda assim eu não acreditaria, se todos mentem, imagina o pai da mentira). Recusa a morte como certeza. Recusa o sertão como condenação. Recusa o sofrimento como pedagogo. E avisa que se recusa “só por precaução”, o que é ao mesmo tempo uma brincadeira e uma declaração de método. Ela sabe que é ingênua só estrategicamente. 

É aqui que o vitalismo de Maria se revela em toda sua potência. Não é o vitalismo abstrato da pulsão de vida contra a pulsão de morte. Ao contrário (e Maria tem uma briga pessoal com Freud por isso). O vitalismo de Maria é encarnado, vivido, provado no corpo e no prazer e na vingança e na memória. Quando ela diz que em tudo que se imagina ela está viva, “e muito bem viva, aliás, viva pra danar”, não é uma tese. É uma constatação empírica de quem não consegue imaginar-se morta porque está ocupada demais vivendo.

Mas o que diferencia Maria das personagens que celebram a vida por ingenuidade ou por graça narrativa é que ela conhece o peso do que recusa. A marca a fogo no rosto, a prática de Lampião de mandar matar mulheres por temer que revelassem segredos. Ela conhece tudo isso e ainda assim não abre mão do prazer de viver. A cicatriz não é lição, é preço pago pela liberdade (liberdade até pra quando não prexisa usá-la).

O humor é a arma principal desse vitalismo. E que humor! Sofisticado, estratificado, capaz de conter um argumento filosófico dentro de uma piada sobre vermes. Quando Maria comenta que algumas pessoas gostam de “ser gordinho mesmo, pra dar trabalho aos vermes”, ela está ao mesmo tempo rindo do existencialismo alheio e fazendo uma demonstração prática de sua tese: que imaginar-se morto é sempre um jogo de quem ainda está muito vivo. O humor vem do registro oral nordestino — o “oxe”, o “viva pra danar”, o “pro inferno com” — contrastando com um repertório que passa por Montaigne, Joyce, a mitologia grega e as Escrituras hebraicas. Mas o contraste não é cômica ingenuidade caipira versus erudição importada. É Maria usando o que sabe para fundar sua própria razão no meio do nada.

Porque Maria é, antes de tudo, uma intelectual orgânica da caatinga. Cita Tirésias para contestar Freud sobre inveja fálica. Cita Tamar, matriarca bíblica cujo nome em hebraico significa “permanecer ereto”, para reivindicar o desejo feminino como genealogia sagrada. Cita Molly Bloom e a Esposa de Bath para fundar uma tradição de mulheres que não pedem licença para gozar. Não é erudição decorativa: é o trabalho de quem entendeu que a linguagem é território e que para sobreviver nela é preciso conhecê-la melhor do que os donos.

E o sertão, nessa cartografia, é também território linguístico. E por falar em linguagem, Maria aprende até a imitar os pássaros (como entretenimento, diz, e  incluindo o pássaro-pau, “bicho frouxo”, ao mesmo tempo animal real e metáfora do impostor, do homem que finge mais do que é) e imita como estratégia: pois quem sabe todos os cantos não pode ser confundido com nenhum. Ela é, no bando de Lampião, uma espécie de duplo de Lampião: dentro do bando para se proteger do bando, imitando a linguagem dos homens para não ser confundida com nenhum.

A voz narrativa de Maria interpela diretamente as “Filhas do sertão”, criando uma comunidade de leitoras imaginadas dentro do próprio texto. Ela antecipa objeções, desvia, volta, mente um pouco, avisa que vai mentir. Quando ela diz que recusa a certeza da própria mortalidade “só por precaução”, está dando ao leitor a chave de leitura: a ingenuidade aqui é sempre performática. Por baixo dela há uma mulher que calculou cada passo.

Nada de Novo é um romance polifônico que dá voz a cangaceiros, volantes, padres, ex-escravos, indígenas, e também ao carcará, à relva, às bactérias, ao Sol em crise de disforia de gênero, e no epílogo ao próprio pó em que todos viraram. Mas Maria sobrevive ao massacre de Angicos não como heroína trágica, mas como habitante legítima de um sertão que ela se recusa a abandonar emocionalmente mesmo quando o abandona fisicamente.

Há uma frase que resume a filosofia de Maria sobre a terra que a formou: “gente é como a natureza, cheia desses defeitos necessários à exuberância da gente.” O sertão não é apesar dos defeitos, é com eles. A seca não é ausência de chuva: é a condição que faz a chuva ser boa, que faz o avô exultar quando os riozinhos ancestrais voltam. 

E quando ela diz que toda vez que se olha no espelho se arrega, que antes de se cobrar se premia, que aprendeu com as egípcias que mulher é sempre serpente diante do espelho ela está, de novo, fazendo do sertão uma cosmologia. O espelho, no quarto de uma cangaceira na caatinga brasileira de 1938 reflete a mesma serpente que o de Cleópatra no Egito. A história das mulheres é uma só, e ela passa pelo prazer tanto quanto pela dor, pela astúcia tanto quanto pelo sofrimento.

Importante dizer que o estilo quase barroco de Régis, a mudança contínua de narrador, a violência, pode afastar alguns leitores. Mas quem ficar vai ser recompensado por uma das obras mais originais da literatura brasileira em anos.

O livro está em pré-venda no site da editora M.inimalismos com promoção especial: durante a pré-venda, quem comprar um exemplar ganha outro para presentear.

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